Tarifa de 20% protege resina nacional, mas pode encarecer autopeças

Roberto Soares

A renovação da tarifa de importação de 20% sobre seis tipos de resinas de polietileno e polipropileno criou um efeito ambíguo para a cadeia automotiva brasileira. A medida pode dar fôlego à produção nacional, mas também aumenta o custo de uma matéria-prima usada em para-choques, painéis de portas, acabamentos e componentes de proteção.

A decisão foi tomada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex), em 27 de agosto de 2026, e mantém a alíquota por mais 12 meses. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços registrou a deliberação do Gecex, enquanto a Folha detalhou que a medida alcança seis resinas de polietileno e polipropileno.

Como a tarifa chega às autopeças

O polipropileno, conhecido pela sigla PP, é um plástico termoplástico que pode ser aquecido e moldado repetidamente. Na indústria automotiva, ele aparece tanto em peças visíveis quanto em elementos internos e estruturais.

A resina chega primeiro às empresas transformadoras. Essas companhias compram o material em forma de grânulos e o transformam por processos como moldagem por injeção ou expansão. Depois, fornecem componentes para fabricantes de veículos, reparadores e distribuidores de peças.

Por isso, a tarifa não significa que um para-choque ficará automaticamente 20% mais caro. O imposto incide sobre a resina importada, não diretamente sobre a autopeça. O impacto final depende da participação do plástico no custo da peça, do contrato entre fornecedores, da disponibilidade de material nacional e da capacidade de cada empresa absorver ou repassar despesas.

Ainda assim, a pressão pode aparecer em diferentes pontos. Um transformador que precise importar PP pagará imposto, frete, seguro, câmbio e custos de desembaraço. Se comprar material nacional, poderá enfrentar preços alinhados às referências internacionais, mas com menor alternativa de negociação quando a concorrência externa fica mais cara.

Para-choques e painéis estão entre as aplicações

O PP combina baixo peso, resistência química, facilidade de moldagem e boa capacidade de absorção de impacto. Segundo a Knauf Automotive, o material é usado em para-choques, painéis de portas, painéis internos, tabliers e cavas de rodas.

Em alguns sistemas de segurança, aparece também o EPP, ou polipropileno expandido. Essa versão funciona como uma espuma capaz de deformar em uma colisão e dissipar parte da energia do impacto. Assim, o mesmo grupo de materiais pode participar do acabamento externo, do interior e de componentes relacionados à proteção dos ocupantes.

A Knauf afirma ainda que o PP representa aproximadamente 37% dos plásticos usados em carros de passeio. Esse dado não indica que 37% do peso do veículo seja polipropileno. A própria fonte estima que os componentes de PP correspondam a cerca de 5% a 7% do peso total do automóvel.

Proteção nacional contra custo maior

A indústria química defende a tarifa como uma forma de combater a sobreoferta global, especialmente de produtos asiáticos, e preservar a capacidade produtiva brasileira. A lógica é manter uma base doméstica capaz de atender setores estratégicos, gerar empregos e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros.

A indústria de transformação, porém, vê o problema por outro ângulo. A Abiplast argumenta que a renovação encarece os insumos e beneficia principalmente a Braskem, produtora nacional de diversas resinas. A entidade também afirma que o custo pode chegar aos produtos finais, incluindo componentes plásticos.

As duas posições podem coexistir. A tarifa pode proteger uma produtora brasileira e, ao mesmo tempo, reduzir a pressão competitiva sobre o preço da matéria-prima para os transformadores. O resultado dependerá da oferta efetiva, dos preços internacionais e das condições comerciais praticadas no mercado interno.

O risco maior está na falta de oferta

A situação financeira da Braskem adiciona uma preocupação diferente. Conforme apuração do UOL Economia, as importações já chegaram a 46% do mercado nacional de resinas, enquanto a participação da empresa caiu para cerca de 49%, segundo dados citados pela reportagem.

Se a petroquímica reduzir sua produção, as empresas brasileiras poderão substituir parte do volume por importações. O mercado externo tem capacidade de fornecer resina, mas essa alternativa expõe a cadeia ao dólar, ao frete internacional, às tarifas e a prazos de entrega mais longos.

Para o consumidor, isso pode aparecer primeiro no preço e na disponibilidade de peças de reposição. Uma eventual alta não seria automática nem igual para todos os componentes, mas poderia afetar para-choques, acabamentos, painéis e peças de maior volume de plástico.

Em resumo, a tarifa de 20% pode preservar a produção doméstica, mas não elimina o risco de encarecer a cadeia de transformação. O ponto mais sensível será a combinação entre preço do insumo e continuidade do abastecimento. Se a oferta nacional permanecer estável, o efeito pode ser limitado; se cair, a dependência de importações ficará mais cara e mais vulnerável a câmbio, logística e novas tarifas.

Roberto Soares

Entusiasta dedicado à tecnologia e à mobilidade, além de apaixonado pela escrita. Com formação em Engenharia e Gestão de Empresas, possui mais de 20 anos de experiência no setor automotivo.

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