A Stellantis pretende pelo menos dobrar o volume de veículos desmontados no Centro de Desmontagem Veicular (CDV) de Osasco, em São Paulo. A unidade processou cerca de 1.150 automóveis em seu primeiro ano e mira pelo menos 2.300 nos próximos 12 meses. Ainda assim, o resultado projetado representaria apenas uma fração da capacidade nominal de 8 mil veículos anuais.
Essa diferença ajuda a explicar por que ampliar a oferta de peças usadas legais não depende apenas de ocupar mais espaço ou adicionar funcionários. O processo envolve captação dos veículos, baixa documental, desmontagem manual, avaliação técnica, registro das peças, destinação de resíduos e venda em canais capazes de atender consumidores e oficinas.
Capacidade instalada não é produção automática
O CDV de Osasco foi dimensionado para operar com três turnos e desmontar até 8 mil veículos por ano. Atualmente, porém, trabalha em apenas um turno. Com 1.150 unidades processadas, a utilização equivale a aproximadamente 14% da capacidade nominal. Mesmo que a meta de 2.300 desmontes seja atingida, o índice chegaria a cerca de 29%.
A própria Stellantis atribui o ritmo atual ao caráter altamente manual da operação. Segundo a reportagem da AutoData sobre o CDV de Osasco, não há mecanização nas etapas de desmontagem. O powertrain, conjunto formado por motor, transmissão e componentes associados, pode levar mais de 30 minutos apenas para ser desmontado, separado e encaminhado à avaliação de um especialista.
Esse cuidado reduz o risco de vender como reutilizável uma peça sem condição técnica adequada, mas limita a velocidade. Cada componente precisa seguir para um dos destinos possíveis: venda como peça usada, remanufatura, reciclagem ou outra destinação final.
O gargalo começa antes da desmontagem
Para alimentar a linha, a empresa precisa adquirir veículos em fim de vida ou sem viabilidade econômica de reparo. A legislação brasileira não permite simplesmente desmontar qualquer automóvel recebido. A empresa deve emitir a nota fiscal de entrada e só pode iniciar o desmonte depois da certidão de baixa do registro.
A Lei nº 12.977/2014 também determina que a desmontadora registre as peças destinadas à reutilização, cumpra critérios técnicos e informe ao comprador a procedência e as condições do produto. Portanto, aumentar o volume depende de uma cadeia regular de aquisição, transporte, documentação e baixa dos veículos.
Na prática, isso torna a captação um fator tão importante quanto a produtividade interna. Sem fluxo constante de automóveis elegíveis, a capacidade física permanece ociosa. Com veículos disponíveis, a empresa ainda precisa processá-los dentro dos prazos legais e manter os registros correspondentes.
Triagem e rastreabilidade definem o que chega ao mercado
No primeiro ano, o CDV recuperou mais de 20 mil peças e vendeu 11 mil. A operação também destinou 862 toneladas de materiais à reciclagem e encaminhou 14 mil litros de fluidos para tratamento, segundo os dados divulgados em setembro.
O número de peças recuperadas, entretanto, não equivale automaticamente ao número de peças comercializáveis. A triagem individual separa componentes aptos à reutilização daqueles que precisam de reparo, remanufatura, sucata ou descarte. Além disso, a unidade deve registrar as peças reutilizáveis em banco de dados e manter a ligação entre o componente e o veículo de origem.
Essa rastreabilidade é essencial para diferenciar uma peça usada legal de um componente de procedência desconhecida. Ela também cria uma camada adicional de trabalho: identificar, avaliar, cadastrar, armazenar e localizar cada item antes da venda.
Canais de venda também limitam a escala
A Stellantis comercializa os componentes por loja física e plataformas digitais, incluindo Mercado Livre, Shopee, Peça Direta, Drive Parts e atendimento por WhatsApp. Em junho, a empresa informava mais de 8 mil peças vendidas desde o início da operação; em setembro, o total divulgado já passava de 11 mil.
Esse crescimento mostra que a oferta precisa ser acompanhada por catalogação, fotografia, descrição técnica, estoque e logística. Para uma oficina, não basta existir uma peça no galpão: é necessário encontrar o item correto, confirmar sua condição, verificar a compatibilidade e receber informações sobre sua origem.
A expansão dos canais pode ajudar a transformar o estoque em receita, mas também aumenta a necessidade de controle. Erros de identificação, falta de informação ou demora no atendimento reduzem o aproveitamento comercial mesmo quando a desmontagem avança.
O que a meta realmente representa
A meta de 2.300 veículos é relevante porque pode ampliar a disponibilidade de componentes usados com procedência comprovada. Contudo, ela não significa que o CDV esteja próximo de utilizar toda a estrutura instalada. O salto projetado é, antes de tudo, uma etapa de aprendizado operacional.
Assim, a resposta para a baixa utilização combina fatores: trabalho manual, necessidade de avaliação especializada, captação regular de veículos, exigências de baixa e registro, controle ambiental e capacidade dos canais de venda. A Stellantis pode dobrar o volume sem resolver todos esses pontos; para se aproximar dos 8 mil desmontes anuais, precisará coordená-los simultaneamente.
Para consumidores e oficinas, o impacto mais imediato tende a ser uma oferta maior de peças usadas legalizadas, mas isso dependerá da continuidade do abastecimento e da qualidade da rastreabilidade. O desafio central não é apenas desmontar mais carros: é transformar cada veículo em componentes identificados, tecnicamente avaliados e comercializados dentro das regras.
