Biometano reduz custo no corredor da Copersucar, mas exige rota sob medida

A expansão da BioRota para Mato Grosso do Sul mostra que o biometano já pode operar em viagens rodoviárias de longa distância no Brasil. Porém, a economia anunciada pela Copersucar não depende apenas do preço do combustível. Ela resulta de uma cadeia integrada, com matéria-prima própria, produção próxima das usinas, rotas previsíveis, pontos de abastecimento planejados e caminhões adaptados para transportar mais gás.

A nova frente começará ainda em 2026, com 12 caminhões e uma rota superior a 1.000 quilômetros entre a região de Rio Brilhante, em Mato Grosso do Sul, e o Porto de Santos. Com a expansão, a frota da BioRota chegará perto de 90 veículos. A companhia também prevê superar 100 caminhões a biometano até março de 2027, segundo informação publicada pela AutoData.

De onde vem a economia de até 40%

O primeiro fator é o acesso ao combustível dentro da própria cadeia sucroenergética. A Copersucar utiliza biometano produzido pela Cocal a partir de resíduos da cana-de-açúcar, como vinhaça e torta de filtro. Esses materiais passam por biodigestão, processo que gera biogás. Depois da purificação, o gás se transforma em biometano, combustível renovável com características adequadas para uso em veículos pesados.

As duas plantas da Cocal ficam no Oeste paulista. A unidade de Narandiba tem capacidade de produzir até 25 mil m³ por dia, enquanto a de Paraguaçu Paulista pode alcançar 60 mil m³ por dia durante a safra. Essa proximidade reduz a dependência de longos deslocamentos para levar o combustível até os caminhões.

A descrição oficial da BioRota informa que mais de 70 caminhões já participavam da operação em maio de 2026. Na ocasião, a empresa também registrava mais de 13 mil viagens, 11 milhões de quilômetros percorridos e a substituição de aproximadamente 5 milhões de litros de diesel.

Na expansão para Mato Grosso do Sul, o diretor de Logística e Operações da Copersucar afirmou que o biometano pode custar de 30% a 40% menos que o diesel, dependendo da operação. Portanto, esse percentual deve ser entendido como resultado condicionado ao desenho logístico, e não como uma diferença automática disponível para qualquer transportadora.

Por que a rota precisa ser planejada

O biometano ocupa mais espaço que o diesel para armazenar uma quantidade equivalente de energia. Por isso, os caminhões da BioRota usam cilindros adicionais, conhecidos na operação como “mochilão”, para ampliar a autonomia. O recurso ajuda a cumprir trajetos longos, mas acrescenta peso, ocupa espaço e exige planejamento para não comprometer a produtividade do veículo.

Além disso, a transportadora precisa saber onde abastecer. Uma rota fixa entre usina, terminal e porto facilita a instalação ou o uso de pontos de abastecimento. Já uma operação com cargas fracionadas, destinos variáveis e retornos incertos pode exigir mais postos, maior capacidade de armazenamento ou transporte do combustível até a base.

Esse aspecto diferencia a BioRota de uma frota independente. A Copersucar controla ou coordena parte relevante da origem da carga, conhece os volumes transportados e consegue concentrar o abastecimento em poucos corredores. Uma empresa sem acesso a resíduos próprios pode precisar comprar o biometano de terceiros, pagar pelo transporte do gás e lidar com preços mais sensíveis à oferta regional.

Escala pode transformar a vantagem em custo fixo

A produção também precisa alcançar escala suficiente. Uma planta de biometano envolve biodigestores, sistemas de purificação, compressão, armazenamento e controle de qualidade. Quanto maior e mais regular for o consumo, mais fácil diluir esses investimentos entre os quilômetros rodados.

O estudo internacional divulgado pelo Instituto MBCBrasil indica que o custo total do biometano pode variar de 30% abaixo a 25% acima do diesel. O cálculo considera não apenas o combustível, mas também aquisição, manutenção e operação dos veículos. A análise destaca ainda que infraestrutura, matéria-prima, escala e receitas complementares, como tratamento de resíduos, biofertilizante e créditos de carbono, alteram o resultado econômico.

A própria Copersucar aponta que a expansão da oferta e da infraestrutura será fundamental para levar o modelo a outras rotas e transportadoras. Em outras palavras, a BioRota comprova a viabilidade de uma configuração específica. Ela ainda não prova que toda operação de longa distância terá a mesma economia.

O que isso muda para o transporte brasileiro

Para o mercado, o principal efeito é mostrar que o biometano pode competir com o diesel em corredores previsíveis e de alta utilização. A alternativa tende a ser mais atraente para transportadoras que operam perto de aterros, usinas, granjas, frigoríficos ou estações de tratamento capazes de fornecer matéria-prima constante.

Por outro lado, empresas menores ou com rotas muito variáveis podem encontrar custos maiores de abastecimento, adaptação dos veículos e manutenção da infraestrutura. Nesses casos, a economia do combustível pode desaparecer mesmo quando o biometano é mais barato na origem.

Assim, o biometano pode reduzir o custo do frete em até 30% ou 40% dentro de uma cadeia verticalizada como a da Copersucar. Fora dela, o resultado dependerá de quatro condições: oferta regional do combustível, rotas fixas, autonomia compatível e volume suficiente para diluir os investimentos. A tecnologia está pronta, mas a economia só aparece quando combustível, caminhão e logística trabalham como um único sistema.

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