Financiamento bate recorde, mas carros usados puxam o volume

O financiamento de veículos bateu recorde em setembro, mas o número total esconde uma diferença importante: os carros usados foram responsáveis pela maior parte das operações. Dos 468 mil automóveis e comerciais leves financiados no mês, 342 mil eram usados e 126 mil eram novos.

Considerando todas as categorias, incluindo motos e veículos pesados, o mercado registrou cerca de 670,7 mil contratos em setembro. O resultado foi 2,8% superior ao de setembro de 2025 e representou o maior volume para o mês em 15 anos, segundo o levantamento da Trillia, unidade de negócios da B3.

O recorde foi puxado pelos usados

O recorte por categoria ajuda a explicar por que o mercado avançou mesmo com crédito caro. Entre os automóveis e comerciais leves, os usados representaram aproximadamente 73% dos financiamentos de setembro. Já as motos somaram 179 mil contratos, enquanto os veículos pesados responderam por 27 mil.

Esse perfil muda a leitura do resultado. Mais contratos não significam necessariamente que o consumidor passou a comprar veículos novos com facilidade ou que os bancos reduziram as exigências. O volume pode crescer quando o comprador migra para um veículo usado, procura uma parcela compatível com a renda e aceita financiar um bem mais antigo.

Em geral, um usado tem preço de aquisição inferior ao de um modelo zero-quilômetro equivalente. Isso pode reduzir o valor financiado, embora não elimine o efeito dos juros, do prazo e dos custos envolvidos na operação. Além disso, a prestação final depende da entrada e do perfil de risco atribuído pelo banco.

Juros continuam pesando no custo

A taxa média mensal das novas operações de crédito livre para aquisição de veículos por pessoas físicas ficou em 1,97% ao mês em agosto de 2026. A série do Banco Central considera a taxa ponderada pelo valor das concessões e não inclui operações com taxas regulamentadas ou recursos de programas governamentais.

Essa distinção é importante porque o número de contratos mede quantidade, não custo. Uma operação pode ser aprovada, mas ainda assim comprometer uma parcela relevante da renda durante vários anos. Por isso, o consumidor precisa comparar o Custo Efetivo Total, conhecido como CET, e não apenas a taxa anunciada na publicidade.

O CET reúne juros, tarifas, seguros, impostos e outros encargos da operação. Na prática, duas propostas com a mesma entrada e o mesmo prazo podem apresentar valores totais diferentes.

Bancos aprovam, mas selecionam mais

O recorde também convive com um cenário de inadimplência elevada. Em julho, 6,63% dos financiamentos de pessoas físicas estavam atrasados havia mais de 90 dias, de acordo com dados citados pelo C-Level, da Folha de S.Paulo. O índice alcançou o maior patamar desde 2012.

Mesmo assim, os bancos não precisam escolher entre interromper completamente o crédito e liberar financiamentos sem restrições. Eles podem manter o volume em alta enquanto endurecem a análise de risco. Segundo a reportagem, instituições passaram a observar mais o score, a renda comprometida e a capacidade de pagamento do cliente.

Uma das consequências aparece na entrada. Clientes com perfil de crédito mais forte ainda podem encontrar propostas com pouca ou nenhuma entrada, dependendo do banco e do prazo. Já consumidores com score menor podem precisar desembolsar de 20% a 30% do valor do veículo. Em outra instituição citada na reportagem, a entrada média chega a 40%.

Essa estratégia reduz o valor financiado e, consequentemente, o tamanho da parcela. Ao mesmo tempo, limita o acesso de quem não tem poupança suficiente para formar a entrada. Portanto, o aumento dos contratos pode coexistir com uma aprovação mais seletiva.

O que o consumidor deve observar

  • Compare o CET de pelo menos três propostas, e não apenas a taxa mensal.
  • Calcule a parcela junto com seguro, manutenção, combustível, impostos e eventuais tarifas.
  • Verifique se a entrada maior realmente reduz o custo total ou apenas antecipa uma parte do pagamento.
  • Em um usado, reserve dinheiro para inspeção, transferência e manutenção inicial.
  • Evite alongar demais o prazo apenas para encaixar a parcela no orçamento.

O recorde de setembro, portanto, mostra um mercado ativo, mas não um crédito mais barato ou automaticamente mais acessível. O volume foi sustentado principalmente pelos usados, enquanto juros altos, entradas maiores e critérios mais rígidos continuam filtrando os compradores. Para o consumidor, a decisão deve partir do custo total e da capacidade real de pagamento, não do número de contratos anunciados.

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