Move Brasil amplia teto, mas crédito aprovado ainda depende dos bancos

Roberto Soares

O Move Brasil ampliou o preço máximo dos carros financiáveis para R$ 200 mil e passou a aceitar mais combinações de veículos híbridos. A mudança aumenta o número de modelos elegíveis, mas não resolve sozinha o principal obstáculo relatado por taxistas e motoristas de aplicativo: a aprovação do crédito.

Na prática, o programa agora permite escolher entre mais veículos, porém o banco continua responsável por avaliar renda, histórico financeiro, capacidade de pagamento e risco da operação. Por isso, ter um carro dentro das regras não significa que o financiamento será automaticamente liberado.

O que mudou no Move Brasil

A portaria divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços elevou o teto do valor da nota fiscal de R$ 150 mil para R$ 200 mil. A regra vale para carros novos destinados a beneficiários do programa.

Além disso, o texto ampliou a definição de híbrido. Agora, podem entrar veículos que combinem motor elétrico com propulsor a combustão movido a álcool, gasolina ou ambos. A medida deixa de restringir a elegibilidade a uma única configuração tecnológica e pode incluir mais híbridos flex e convencionais.

Segundo o governo, o aumento do teto eleva o alcance potencial do critério econômico de aproximadamente 63% para 88% do mercado brasileiro de automóveis, com base nos emplacamentos de 2025. Esse percentual indica a parcela de modelos que pode se enquadrar pelo preço, não a quantidade de consumidores que conseguirá contratar o crédito.

Mais carros elegíveis não significam mais financiamentos

Essa diferença é o ponto central da mudança. A elegibilidade do veículo depende das regras do programa, como preço, categoria tecnológica e fabricante habilitada. Já a aprovação depende da instituição financeira.

O banco pode considerar que a renda declarada é insuficiente para a parcela, que a atividade do motorista apresenta maior instabilidade ou que o histórico de crédito não oferece segurança para a operação. Também pode aplicar critérios internos que não aparecem na lista pública de carros permitidos.

O problema ganhou força porque o Move Brasil oferece juros inferiores aos praticados na média do mercado. De acordo com a Folha de S.Paulo, as taxas fixadas para o programa são de 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres, enquanto a média do financiamento de automóveis monitorada pelo governo chega a 28% ao ano.

Esse custo menor ajuda o motorista aprovado, mas reduz a margem da operação para os bancos. O governo chegou a criticar instituições financeiras por, segundo sua avaliação, superdimensionarem o risco dos trabalhadores de aplicativo. Ainda assim, a decisão final continua nas mãos das instituições que concedem o financiamento.

Execução do programa ainda está abaixo do potencial

O volume de recursos liberados mostra que o gargalo não está apenas na falta de dinheiro disponível. A reportagem da Folha informa que somente 11% dos R$ 30 bilhões destinados ao Move Aplicativos haviam sido liberados até 20 de agosto de 2026.

Dois dias antes, a AutoData informou que R$ 4 bilhões tinham sido liberados para a compra de veículos novos em cerca de dois meses. A Fenabrave também relatou frustração entre interessados que tiveram suas fichas negadas pelos bancos.

Os números não permitem concluir que todos os pedidos recusados tenham sido injustificados. Eles mostram, porém, que existe uma distância relevante entre os recursos reservados e o crédito efetivamente contratado. Sem uma revisão dos critérios de análise ou uma melhor coordenação entre governo, bancos, montadoras e concessionárias, o teto maior pode ampliar o catálogo sem produzir aumento proporcional nas compras.

O impacto para taxistas e motoristas de aplicativo

Para o consumidor, a nova regra traz ganhos concretos. Um teto de R$ 200 mil pode permitir acesso a carros mais espaçosos, confortáveis ou equipados, além de ampliar as alternativas para categorias superiores dos aplicativos. A entrada de mais híbridos também pode favorecer quem busca menor consumo energético em uso urbano intenso.

Por outro lado, o preço maior pode elevar o valor da parcela e dificultar ainda mais a aprovação para quem já tem renda comprometida. Mesmo quando o veículo se enquadra no programa, o motorista pode precisar oferecer uma entrada maior, reduzir o valor financiado ou escolher um modelo mais barato para caber na política de crédito do banco.

Também é importante evitar uma interpretação equivocada: o programa não transforma qualquer motorista cadastrado em tomador automaticamente aprovado. A comprovação dos requisitos de participação, como cadastro ativo e histórico mínimo de corridas, é apenas uma etapa. Depois dela, ainda vem a análise financeira.

Conclusão

Elevar o teto para R$ 200 mil e incluir mais híbridos aumenta, sim, as opções disponíveis no Move Brasil. No entanto, a medida resolve principalmente o problema da oferta de veículos, não o acesso efetivo ao dinheiro. Enquanto os bancos mantiverem autonomia para negar operações consideradas arriscadas, mais modelos elegíveis não garantirão mais financiamentos aprovados.

Roberto Soares

Entusiasta dedicado à tecnologia e à mobilidade, além de apaixonado pela escrita. Com formação em Engenharia e Gestão de Empresas, possui mais de 20 anos de experiência no setor automotivo.

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