Depois que a água baixa, a vontade de descobrir se o carro ainda funciona pode aumentar o prejuízo. Em 16 de outubro de 2026, mais de 20 veículos foram arrastados por uma enchente na divisa entre Diadema e a zona sul de São Paulo. A ocorrência deixou carros amontoados e mostrou como o problema não termina quando a água recua. Segundo o UOL, a TV Globo contou mais de 29 automóveis no local.
Nessa situação, a primeira regra é simples: não tente dar a partida. O motor pode ter aspirado água pela entrada de ar. Se o líquido chegar aos cilindros, os pistões não conseguem completar seu movimento normal. Esse fenômeno é chamado de calço hidráulico e pode deformar componentes internos ou até exigir a desmontagem completa do motor.
Por que a primeira partida é tão arriscada?
Quando o veículo fica parado dentro da água, o motor pode parecer intacto por fora. Porém, a água pode alcançar o filtro de ar, a admissão e os cilindros. Ao acionar o motor de arranque, o proprietário força o conjunto a girar mesmo que exista líquido no interior. Como a água praticamente não pode ser comprimida, o esforço passa para bielas, pistões e virabrequim.
O risco não se limita ao motor. A umidade e a lama também podem contaminar conectores, chicotes, sensores, módulos eletrônicos, freios e componentes do câmbio. Em alguns casos, o defeito aparece apenas dias ou semanas depois, quando a corrosão avança ou a água se mistura ao óleo do câmbio. Por isso, um carro que ainda acende o painel não deve ser considerado seguro para rodar.
O que fazer antes de remover o veículo
Antes de mexer no carro, registre o estado em que ele foi encontrado. Faça fotos e vídeos do veículo por todos os lados, do nível da água ou da lama, do interior, do painel, do compartimento do motor, das placas de identificação e dos danos visíveis. Se possível, guarde também imagens do local, da rua alagada e de outros veículos atingidos.
Em seguida, comunique o sinistro à seguradora ou ao corretor. Informe que o carro foi atingido por enchente, diga onde ele está e solicite orientação formal para a remoção. A seguradora pode indicar um prestador ou autorizar o uso de guincho. De qualquer forma, evite empurrar o veículo por longas distâncias, rebocá-lo com improvisos ou tentar fazê-lo funcionar.
- Não ligue o motor nem use o motor de arranque;
- Não conecte uma bateria auxiliar para testar os sistemas;
- Fotografe água, lama, interior, motor e painel;
- Anote data, horário, local e circunstâncias do alagamento;
- Solicite a remoção por guincho;
- Aguarde a inspeção antes de autorizar desmontagem ou reparos.
Seguro cobre qualquer carro alagado?
Não existe uma resposta automática para todas as apólices. A cobertura depende dos riscos contratados e das condições gerais do seguro. A Susep informa que a cobertura de casco do seguro de automóveis pode incluir alagamentos e inundações, mas orienta o consumidor a verificar o contrato e falar com a seguradora ou o corretor.
Portanto, o proprietário deve consultar a apólice, conferir as exclusões e abrir o aviso de sinistro o quanto antes. A comunicação rápida cria um registro do ocorrido e permite que a empresa indique os próximos passos. Se houver dúvida sobre a contratação, o segurado pode consultar as condições contratuais pelo número do processo Susep informado na apólice.
Carro submerso sempre dá perda total?
Também não. O resultado depende do nível da água, do tempo de exposição, da quantidade de lama, do funcionamento do motor no momento do alagamento e dos componentes atingidos. Um veículo que teve apenas o assoalho molhado pode exigir limpeza e substituição de revestimentos. Já outro, com módulos, câmbio e motor contaminados, pode ter um reparo economicamente inviável.
A inspeção deve avaliar motor, admissão, sistema elétrico, módulos, chicotes, freios, transmissão, fluidos e sinais de corrosão. A Quatro Rodas recomenda acionar a seguradora, remover o veículo por guincho e não autorizar o conserto antes da avaliação da empresa. A mesma orientação ajuda a preservar a apuração do dano e evita desmontagens que dificultem identificar o que aconteceu.
Assim, a decisão mais segura depois da enchente é manter o carro desligado, documentar tudo, acionar o seguro e usar um guincho. Não religar o veículo não elimina os danos causados pela água, mas evita transformar uma possível contaminação em calço hidráulico ou ampliar falhas eletrônicas antes da inspeção.
