TraXon 2 será feita no Brasil, mas ConAct ainda dependerá de peças importadas

A ZF anunciou dois movimentos diferentes para seus componentes de veículos comerciais no Brasil: a produção da transmissão automatizada TraXon 2 em Sorocaba (SP), prevista para começar em meados de 2027, e a remanufatura do atuador pneumático ConAct em Araraquara (SP), inicialmente com peças importadas.

A diferença é importante. Produção nacional significa fabricar o conjunto no país. Já a remanufatura recupera componentes usados, substitui itens de desgaste, realiza testes e devolve a peça ao mercado com garantia. Portanto, os dois anúncios podem reduzir parte da dependência externa, mas não têm o mesmo efeito sobre prazo, custo e disponibilidade.

O que será feito localmente na TraXon 2

A TraXon 2 é a evolução da transmissão automatizada TraXon 1. A ZF manterá a base mecânica da geração anterior, mas adotará uma nova unidade de controle eletrônico, ou ECU, além de novos recursos de software e atuadores de troca de marchas desenvolvidos internamente.

Segundo a página técnica da ZF sobre a TraXon 2, a transmissão terá maior capacidade de processamento, funções de cibersegurança e preparação para atualizações de software por FOTA, sigla em inglês para atualização remota “pelo ar”. A fabricante estima redução de até 1,7% no consumo de combustível e nas emissões de CO₂ em comparação com a TraXon 1.

No entanto, a empresa não detalhou publicamente quanto da ECU, dos atuadores, da eletrônica ou dos componentes mecânicos será produzido no Brasil. O que está confirmado é que a montagem da TraXon 2 ocorrerá em uma linha flexível de Sorocaba, que também continuará produzindo a TraXon 1.

A fábrica receberá ainda uma estação específica para carregamento e processamento do software, com capacidade operacional aproximadamente duas vezes maior que a estrutura atual. A engenharia brasileira participa da adaptação, calibração e validação da transmissão para diferentes aplicações, rotas, cargas e condições de operação.

O ConAct começa por recuperação, não por fabricação completa

O caso do ConAct é diferente. O sistema atua em conjunto com a transmissão e a embreagem, e a operação anunciada para Araraquara começará atendendo o mercado de reposição.

De acordo com a informação divulgada pela AutoData, a unidade recuperará componentes que ainda possam ser reutilizados e substituirá itens sujeitos a desgaste. Depois, cada conjunto passará por testes segundo os padrões da ZF e terá garantia equivalente à de uma peça nova.

A etapa inicial envolverá 63% dos componentes sujeitos a desgaste. A companhia também prevê produzir localmente componentes novos no futuro, mas condiciona essa localização à existência de demanda suficiente. Assim, o ConAct remanufaturado será uma solução parcialmente nacional: o processo industrial, a inspeção e os testes ocorrerão no Brasil, enquanto parte das peças continuará vindo do exterior.

O impacto no prazo e no custo dos caminhões

A produção local da TraXon 2 pode simplificar o planejamento das montadoras e reduzir a dependência de importações para o fornecimento de transmissões novas. Também pode facilitar a integração com linhas de montagem brasileiras, já que a ZF terá produção e suporte próximos dos clientes.

Mesmo assim, não é possível afirmar que o câmbio ficará automaticamente mais barato ou que qualquer peça de reposição estará disponível imediatamente. O preço final depende do conteúdo importado, do volume produzido, dos custos industriais, do câmbio e dos contratos com as montadoras.

No ConAct, a remanufatura tende a oferecer uma alternativa à substituição completa do atuador. Isso pode reduzir desperdício e ampliar as opções no pós-venda. Porém, enquanto peças de desgaste e componentes novos continuarem importados, o processo ainda ficará exposto a prazos de transporte, variação cambial e eventuais interrupções no abastecimento.

Na prática, a remanufatura pode encurtar o tempo de reparo quando houver estoque local de conjuntos recuperados. Entretanto, a ZF ainda não divulgou prazos médios de atendimento, preços ou níveis de disponibilidade. Por isso, esses benefícios devem ser tratados como possibilidades, não como resultados comprovados.

FOTA não depende apenas da transmissão

A TraXon 2 também traz uma promessa relevante para a operação dos caminhões: atualizações remotas de software. A função pode evitar algumas visitas à oficina, mas não estará disponível automaticamente em todos os veículos.

A Transporte Moderno explica que o funcionamento do FOTA dependerá da integração feita por cada montadora, da arquitetura eletrônica e da conectividade do caminhão. Portanto, ter uma ECU preparada para a tecnologia não garante, por si só, atualizações remotas durante toda a vida útil do veículo.

A resposta à pergunta central é, portanto, parcial: a TraXon 2 terá produção seriada no Brasil, com montagem e processamento de software em Sorocaba, mas o grau exato de nacionalização de cada componente ainda não foi informado. O ConAct terá remanufatura brasileira em Araraquara, porém começará com peças importadas. O efeito mais imediato tende a ser maior flexibilidade industrial e uma nova alternativa de pós-venda, enquanto a redução efetiva de custo, prazo e risco de parada dependerá do volume, do estoque e da futura localização dos componentes.

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