Caminhão a hidrogênio leva carga, mas ainda não prova o custo da rota

Roberto Soares

A GWM realizou em 25 de agosto de 2026 o primeiro transporte de carga no Brasil com seu caminhão movido por célula a combustível de hidrogênio. O cavalo mecânico saiu do Laboratório de Hidrogênio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, puxando uma cegonheira com quatro veículos da marca até o Autódromo de Interlagos.

A demonstração confirma que o conjunto consegue tracionar uma carga em uma rota urbana real. No entanto, ainda não permite concluir se a tecnologia apresenta custo competitivo para uma frota comercial. A empresa não informou o consumo de hidrogênio, a massa total transportada ou o custo por quilômetro da viagem.

O que o teste demonstrou

Segundo a GWM, o caminhão entrega 544 cv, 2.700 Nm de torque e autonomia de até 500 km. O modelo utiliza uma célula a combustível, equipamento que combina hidrogênio com oxigênio do ar para produzir eletricidade. Um motor elétrico usa essa energia para movimentar as rodas.

Por isso, o caminhão não queima hidrogênio em um motor convencional. A emissão local do sistema é água, enquanto a bateria de 105 kWh armazena energia recuperada em frenagens e ajuda a atender picos de demanda. Os cilindros de fibra de carbono comportam até 40 kg de hidrogênio a 350 bar.

O percurso entre o IPT e Interlagos teve cerca de 25 km. A operação também transportou quatro unidades do Tank 300 TerraForce, segundo o InsideEVs Brasil, que acompanhou o abastecimento e a saída do conjunto. Assim, o teste mostrou funcionamento, manobrabilidade e capacidade de realizar uma entrega com carga em ambiente urbano.

Autonomia declarada não é consumo real

A autonomia de até 500 km é um dado importante, mas ainda falta saber em quais condições ele foi obtido. Peso da carreta, topografia, velocidade média, temperatura, trânsito e uso de ar-condicionado alteram o consumo de um caminhão pesado.

Também não foi divulgado quantos quilos de hidrogênio o veículo consumiu no trajeto. Sem essa informação, não é possível calcular o gasto energético da operação nem comparar o caminhão com um modelo diesel ou elétrico a bateria.

O tempo de abastecimento apresenta uma vantagem potencial. Engenheiros do IPT informaram ao InsideEVs que uma recarga completa, de zero a 100%, pode levar entre 10 e 15 minutos. Ainda assim, o tempo da parada não revela quanto custa produzir, comprimir, armazenar e entregar o combustível.

O peso dos tanques entra na conta

A GWM informa Peso Bruto Total de 49 toneladas e peso vazio de 10,8 toneladas. A fabricante afirma que o caminhão é cerca de 500 kg mais leve que a média dos concorrentes. Porém, o número não substitui a informação sobre a carga útil efetivamente disponível em cada configuração.

Em uma operação de transporte, cada quilograma ocupado por tanques, bateria, célula a combustível e sistemas de segurança pode reduzir a quantidade de mercadoria levada. Por isso, a comparação correta precisa considerar o peso total do conjunto, incluindo cavalo mecânico, semirreboque, combustível e carga.

O hidrogênio pode exigir uma operação dedicada

O IPT dispõe de uma estação de abastecimento de 350 bar para veículos pesados e outra de 700 bar para veículos leves. Essa estrutura viabilizou o teste em São Paulo, mas uma frota precisaria de abastecimento disponível nas rotas habituais ou de uma logística específica para levar o hidrogênio até a base.

A origem do combustível também influencia o resultado ambiental e financeiro. O hidrogênio pode ser produzido por eletrólise da água, usando eletricidade, ou por rotas baseadas em outras matérias-primas, como o etanol. Cada alternativa tem custos, necessidades de purificação e impactos ambientais diferentes.

O caso citado pela Folha de S.Paulo mostra uma aplicação em mineração na qual a empresa considerou mais barato instalar abastecimento próprio e converter caminhões diesel do que comprar veículos elétricos novos. A situação, porém, não representa automaticamente outras transportadoras: a GWM não revelou a identidade da mineradora, o número de veículos ou o preço da conversão.

Quais dados ainda faltam

Para transformar a demonstração em uma avaliação de frota, transportadoras precisarão conhecer pelo menos:

  • consumo de hidrogênio em kg por quilômetro, com diferentes pesos e trajetos;
  • carga útil líquida e peso total de cada configuração;
  • preço do hidrogênio na origem e no ponto de abastecimento;
  • custo de instalação e manutenção da estação;
  • disponibilidade do caminhão, tempo de parada e periodicidade das revisões;
  • durabilidade da célula a combustível, da bateria e dos tanques;
  • custo total por quilômetro em comparação com diesel e baterias.

Esses indicadores também precisam ser medidos durante meses, e não apenas em uma entrega isolada. Só então será possível verificar como o sistema reage a viagens longas, variações de carga, aclives, calor, chuva e jornadas consecutivas.

Portanto, o primeiro transporte com carga demonstra que o caminhão a hidrogênio da GWM já consegue operar tecnicamente em uma rota brasileira. A viabilidade econômica, contudo, continua em aberto: ela dependerá do preço e da origem do hidrogênio, do consumo real, da carga útil preservada e da infraestrutura necessária para manter a frota rodando.

Roberto Soares

Entusiasta dedicado à tecnologia e à mobilidade, além de apaixonado pela escrita. Com formação em Engenharia e Gestão de Empresas, possui mais de 20 anos de experiência no setor automotivo.

Quer receber todas as nossas matérias em tempo real?
Acesse nosso exclusivo Canal do Telegram

Receba as últimas notícias direto no seu e-mail

Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a você a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.