Plástico reciclado cresce no Brasil, mas encolhe dentro dos carros

A indústria brasileira de reciclagem mecânica produziu 1,06 milhão de toneladas de resina plástica reciclada pós-consumo em 2025, alta de 5,1% sobre o ano anterior. No mesmo período, porém, a indústria automotiva reduziu o consumo desse material para 66 mil toneladas, ante 67 mil em 2024 e 71 mil em 2023.

O contraste não significa que a reciclagem perdeu espaço no país. Ele mostra que a resina reciclada está sendo direcionada para setores diferentes e que o uso de plástico reciclado em um carro depende de critérios técnicos, econômicos e regulatórios próprios.

Produção de reciclado avançou, mas o automotivo perdeu participação

Os números fazem parte do estudo anual realizado pela MaxiQuim a pedido do Movimento Plástico Transforma, iniciativa do PICPlast, parceria entre ABIPLAST e Braskem. Segundo a ABIPLAST, a produção de resina pós-consumo voltou a superar 1 milhão de toneladas em 2025.

O crescimento ocorreu apesar da concorrência das resinas virgens, produzidas diretamente a partir de matérias-primas petroquímicas. Quando os preços do material virgem ficam mais competitivos, as empresas podem reduzir a compra de reciclados, especialmente em aplicações que exigem especificações rigorosas ou maior previsibilidade de fornecimento.

Além disso, a resina reciclada não tem um único destino. Alimentos e bebidas lideraram o consumo em 2025, com 183 mil toneladas, seguidos por higiene pessoal, cosméticos e limpeza doméstica, com 147 mil toneladas. A construção civil e a infraestrutura apareceram na sequência, com 124 mil toneladas.

Assim, o aumento da produção nacional não obriga todos os segmentos a ampliar suas compras. Um setor pode reduzir a demanda enquanto outros absorvem o volume adicional.

Por que o automóvel usa menos plástico reciclado?

A indústria automotiva trabalha com peças que precisam atender a requisitos de segurança, resistência térmica, durabilidade, acabamento e estabilidade dimensional. Isso inclui componentes internos, revestimentos, caixas, suportes e peças técnicas.

Em algumas aplicações, o reciclado pode atender a essas exigências. Em outras, a montadora ou o fornecedor pode optar por uma resina virgem, por uma mistura com material reciclado ou por um reciclado com propriedades específicas. A decisão também depende de preço, disponibilidade, cor, rastreabilidade e regularidade do lote.

O levantamento divulgado pela AutoData mostra que o consumo automotivo caiu pelo terceiro ano consecutivo. O volume passou de 71 mil toneladas em 2023 para 67 mil em 2024 e 66 mil em 2025. Ainda assim, a MaxiQuim não classificou a trajetória como uma mudança estrutural definitiva, pois os produtores podem redirecionar a resina para outros mercados.

Reciclabilidade não é o mesmo que conteúdo reciclado

A principal diferença está no significado de cada termo. Conteúdo reciclado é a quantidade de material reciclado efetivamente incorporada à fabricação de uma peça ou de um veículo. Já reciclabilidade indica o quanto do produto pode, potencialmente, ser reutilizado, reciclado ou recuperado ao fim da vida útil.

A Lei nº 14.902, de 27 de junho de 2024, que instituiu o Programa Mover, define reciclabilidade como o percentual em massa de um veículo novo potencialmente passível de reutilização, reciclagem ou recuperação energética, combinado com compensação antecipada de materiais pela reciclagem de veículos.

Na prática, isso significa que um carro pode cumprir um requisito de reciclabilidade mesmo sem aumentar a quantidade de plástico reciclado usada na montagem. Para isso, o projeto pode facilitar a desmontagem, separar materiais incompatíveis, identificar polímeros, reduzir a mistura de componentes e prever rotas de recuperação ao final da vida útil.

Portanto, a classificação considera o destino potencial dos materiais, e não apenas sua origem. Um painel produzido com resina virgem pode ser reciclável. Da mesma forma, uma peça que contém material reciclado não é automaticamente fácil de reciclar se estiver colada a outros materiais ou tiver composição difícil de separar.

O que isso muda para o consumidor?

Para quem compra um carro, a diferença impede conclusões apressadas sobre alegações ambientais. A palavra “reciclável” não informa, sozinha, qual porcentagem do veículo contém plástico reciclado. Também não garante que todo o material será recuperado na prática, pois isso depende da coleta, da desmontagem e da existência de recicladores capazes de processar cada componente.

O novo cenário regulatório pode estimular avanços. O Decreto nº 12.688/2025 criou metas de conteúdo reciclado para embalagens plásticas, mas não estabeleceu uma obrigação direta para peças automotivas. O efeito sobre os carros tende a ser indireto, com o possível aumento da demanda geral por resinas recicladas e da escala da cadeia.

Em resumo, a produção brasileira de plástico reciclado cresceu porque outros setores ampliaram o consumo e a cadeia recuperou parte da atividade. O automotivo, por sua vez, reduziu a demanda por razões de aplicação, custo e fornecimento. Ao mesmo tempo, um veículo pode ser considerado reciclável porque o critério do Mover mede seu potencial de recuperação, não a quantidade de resina reciclada já incorporada. São objetivos relacionados, mas não equivalentes.

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