A ArcelorMittal reduziu de quase 140 para cerca de 20 ocorrências anuais de sinistros de carga, uma queda aproximada de 85%. O número chama atenção, mas exige uma leitura cuidadosa: esse indicador não contabiliza necessariamente colisões, feridos ou mortes no trânsito.
Segundo a reportagem da AutoData, o indicador acompanha situações em que a condução inadequada contribuiu para danificar a carga. Portanto, ele mede um tipo específico de ocorrência operacional. Uma carga pode sofrer danos sem que tenha ocorrido um acidente rodoviário com vítimas. Da mesma forma, uma colisão pode não resultar em dano relevante ao material transportado.
O que a queda de 85% realmente mostra
O resultado indica uma melhora importante no controle da operação logística. A empresa informa que iniciou, em 2019, um programa de excelência para transportadores e passou a acompanhar desempenho, requisitos de segurança, investigação de ocorrências e planos de ação.
Atualmente, a operação envolve aproximadamente 400 caminhões por dia e cerca de 900 motoristas, de acordo com a AutoData. A ArcelorMittal também utiliza ferramentas como telemetria, monitoramento de rotas e gestão de riscos. Ainda assim, a companhia afirma que a tecnologia funciona como suporte: o foco está na combinação entre processos, indicadores e acompanhamento dos parceiros.
Esse conjunto pode reduzir comportamentos que provocam deslocamento, amassamento ou outro dano à carga. No entanto, a queda do indicador não permite concluir sozinha que a frequência de acidentes de trânsito caiu na mesma proporção.
Três estrelas avaliaram a gestão da unidade Vega
A segunda informação que exige delimitação é a certificação do FIA Road Safety Index. O reconhecimento não foi concedido a todas as operações da ArcelorMittal. O projeto inicial avaliou a unidade Vega, em São Francisco do Sul, Santa Catarina, escolhida por concentrar grande volume de transporte rodoviário.
O comunicado oficial da ArcelorMittal descreve uma análise de políticas, processos, mecanismos de controle e indicadores ligados à segurança viária. A avaliação também considerou empregados, fornecedores e transportadores terceirizados.
Na prática, a certificação verifica a maturidade do sistema de gestão. Entre os itens citados estão o monitoramento das operações, os padrões de segurança exigidos dos transportadores, os controles de acesso dos caminhões à planta e os requisitos aplicados aos motoristas.
Isso é diferente de uma auditoria que publique uma série histórica de acidentes, feridos e mortes em todas as rotas da empresa. A certificação reconhece a estrutura criada para prevenir riscos e acompanhar a operação, mas não substitui estatísticas de sinistros rodoviários com vítimas.
“Nota máxima” precisa ser datada
Quando a ArcelorMittal recebeu três estrelas, em julho de 2026, esse era o nível mais alto disponível no índice. A expressão “classificação máxima” estava correta naquele momento e se referia à avaliação realizada em Vega.
Entretanto, a FIA ampliou posteriormente a escala. Em 8 de setembro de 2026, a Honda informou que recebeu a primeira classificação de cinco estrelas no índice. A comunicação da Honda registra que a metodologia passou de três para cinco níveis.
Os novos níveis acrescentaram critérios relacionados a planejamento, monitoramento do desempenho de segurança, cultura de segurança e cobertura da cadeia de fornecimento ou de produtos e serviços. Por isso, as três estrelas da ArcelorMittal continuam sendo a nota máxima da avaliação feita em julho, mas não representam mais o teto atual da escala da FIA.
Quais dados ainda faltam
Para afirmar que houve redução de acidentes rodoviários, feridos ou mortes, seria necessário conhecer informações que não aparecem nas fontes consultadas, como:
- número de colisões e tombamentos antes e depois do programa;
- quantidade de feridos e mortes nas operações próprias e terceirizadas;
- distância percorrida ou volume transportado em cada período;
- critério usado para registrar acidentes e quase acidentes;
- abrangência geográfica e quais transportadores entraram na comparação.
Esses dados permitiriam calcular taxas por quilômetro, viagem ou tonelada transportada. Sem eles, a conclusão mais segura é restrita: a ArcelorMittal reporta uma forte queda nas ocorrências de danos à carga e recebeu uma certificação de gestão viária na unidade Vega.
Para gestores de frota, o caso mostra o valor de combinar indicadores operacionais com auditorias de processos. Para o público, porém, a mensagem precisa ser mais precisa: a redução de 85% é positiva, mas não prova, por si só, que houve menos acidentes, feridos ou mortes nas estradas.
